08/12/2016

Carta de Sofia



Meu nome é Sofia. Eu tinha 14 anos quando morri, no dia 9 de agosto de 1999. Vou contar a você minha breve história, de como fui morta. Naquela época, era muito comum confiarmos facilmente nas pessoas sem ver qualquer perigo, e esse foi o meu fim, a confiança. Eu voltava da escola como qualquer outro dia, sabia que em casa minha mãe estaria me esperando com o almoço pronto. A rua onde eu morava era vazia no horário em que passava. Meu sapato desamarrou e me abaixei em frente a uma casa qualquer para amarrá-lo. Meu vizinho estava saindo de dentro de casa, como se estivesse me esperando. Aparentava ser um bom homem, me cumprimentou e disse que precisava da minha ajuda. Ele estava pintando a sua sala e queria uma segunda opinião sobre a cor. Eu hesitei por alguns instantes, mas logo lembrei que era um bom homem e que no Natal ele sempre se vestia de Papai Noel e distribuía doces para as crianças da rua.
Eu o segui pela casa e para a sala em questão. Lembro que tudo tinha cheiro de tinta. A cor era horrorosa, um amarelo puxado pro dourado. Eu não sábia o que dizer, então disse que tinha ficado ótimo. Ele me deu um sorriso largo, mas irritou-se quando eu disse que precisava ir. Ele me olhou de uma maneira diferente e disse "seja educada, fique e tome um pouco de suco de amoras do meu jardim, garanto que vai gostar". Eu bebi o suco e achei que o gosto estava ruim, parecia que tinha algo junto, alguma droga, não sei bem o que era.
Fiquei tonta e me encaminhei para a porta assustada, pronta para dar o fora dali, mas ele me agarrou e me jogou contra a parede. Fiquei nauseada, sem entender o que estava acontecendo. Ele chegou perto do meu ouvido e sussurrou "faça o que eu digo, se não, será morta". Ele mandou eu tirar a roupa e deitar no sofá, pegou uma faca, olhou pra mim e disse "para o caso de você não me obedecer". Deu um sorriso largo, aquele mesmo sorriso que eu confiei.
Ele deitou sobre mim, colocou o braço no meu pescoço e começou a apertar. Eu continuava nauseada, estava sem forças para lutar. Ele começou a abusar de mim. Sua faca estava jogada ao lado do sofá, eu pensei rápido, só teria uma chance, peguei a faca e enfiei em suas costas, mas isso só serviu para deixá-lo mais irritado, pois não consegui machucá-lo de verdade. Ele tirou a faca de seu corpo, sempre me segurando com suas pernas para evitar que eu fugisse. Eu não tinha forças para gritar e nem me mexer direito, então ele cortou minha garganta. Eu levei alguns minutos para enfim morrer, enquanto ele olhava pra mim e saboreava minha agonia.
Até hoje meu corpo jaz em uma cova rasa feita nos fundos de seu jardim, pois minha família nunca me encontrou. Sinto em dizer que meu assassino hoje ainda vive livre, e ainda faz muitas vítimas. A última coisa que pensei antes de morrer foi nas pessoas que amo e como queria que elas estivessem comigo para sempre.
Onde eu estou agora? Bom, agora que você leu essa carta, estou vigiando você, posso sentir seu cheiro, esse cheiro podre dos humanos. Fico no seu quarto todas as noites, esperando a hora certa para poder te mostrar o que fizeram comigo. E quando a hora chegar, ninguém poderá te ajudar.
Vou adorar devorar todos os seus órgãos, mas vou fazer isso calmamente, para que você possa ter uma experiência parecida com a que eu passei.
Tenha uma boa noite.

Com amor,

Sofia.