28/06/2017

Jack, o Estripador

Em 31 de agosto de 1888, o assassinato de uma prostituta em Londres foi o primeiro capítulo de um mistério que completa 129 anos. Quem a matou se tornou o mais lembrado serial killer da história, embora sua identidade tenha permanecido desconhecida por muitos anos.



A figura conhecida como Jack, o Estripador (Jack The Ripper, em inglês) matou prostitutas, disseminou o pânico pelas ruas do pobre distrito de Whitechapel, ganhou descrições monstruosas nos jornais e desafiou investigadores de duas forças policiais. Mesmo assim, após 2 mil entrevistas, 300 suspeitas e 80 detenções empreendidas pela polícia, ninguém sabe exatamente o que ele fez. 

Conheça agora o caso de Jack, o Estripador, com os fatos e as questões que sempre rodearam o mistério.


Os Assassinatos de Whitechapel




Para compreender a dimensão do mistério, alguma contextualização é necessária. Em 1888, uma série de crimes estarreceu Whitechapel, no leste de Londres. A brutalidade impressionava até para os padrões da região, a mais violenta da capital britânica. De abril daquele ano a fevereiro de 1901, foram assassinadas 11 mulheres, a maioria (senão todas) prostitutas, mortas com cortes de faca na garganta, algumas delas completamente mutiladas e demovidas de alguns de seus órgãos. 

Em um momento ou outro, todas essas vítimas foram associadas à figura de Jack, o Estripador. Mas apenas cinco delas constam na lista das mais prováveis vítimas do assassino, uma relação chamada de “canonical five” (as cinco vítimas canônicas), defendida pela maioria dos pesquisadores que estudaram o caso, segundo a Metropolitan Police.

Autor do livro mais vendido até hoje sobre o assunto (The Complete Jack The Ripper, sem tradução para o português), Donald Rumbelow é um dos que defende essa lista de vítimas. Rumbelow já foi curador do Museu da City of London Police e presidente da associação britânica de escritores criminalísticos. Hoje dá palestras sobre o tema e guia grupos de turistas e curiosos toda semana em um tour sobre o serial killer pelas ruas de Londres. Para o filme Do Inferno (From Hell, de 2001), Rumbelow ficou encarregado de apresentar as minúcias do caso ao ator Johnny Depp. 

Outro pesquisador que resolveu estudar o caso é Trevor Marriott, ex-detetive da Divisão de Homicídios da Metropolitan Police que se debruça sobre o mistério desde 2002. Ele já lançou um livro sobre o assunto em 2005 (Jack, o Estripador: A investigação do século 21) e vai publicar outro no início de setembro, com mais arquivos da polícia sobre o mistério.

Em suas investigações, Marriott concluiu que ao menos três dessas cinco vítimas foram mortas pelo mesmo assassino: Mary Ann Nichols, Annie Chapman e Catherine Eddowes. Ele aponta um marinheiro mercante alemão de nome Carl Feigenbaum como seu principal suspeito. O ex-detetive acredita ainda que a ideia de que o serial killer removesse os órgãos das vítimas seja apenas um mito.


As Cinco Vítimas Canônicas


Mary Ann Nichols
Sexta, 31 de agosto de 1888


Fotografia mortuário de Mary Ann Nichols

Foi a primeira vítima. À 1h30 da manhã, Mary Ann Nichols teve sua entrada recusada em um alojamento, já que não possuía dinheiro suficiente para pagar. Antes de ir embora, disse que sairia para obter a quantia nas ruas. Às 3h40, foi encontrada morta, estirada no chão, com a saia levantada. Tinha dois cortes na garganta e o abdômen completamente mutilado.


Annie Chapman
Sábado, 8 de setembro de 1888



         Fotografia mortuário de Annie Chapman

Oito dias depois, outra prostituta, Annie Chapman, foi encontrada morta, em condições muito semelhantes às de Mary Ann Nichols. O médico da polícia, George Bagster Phillips, afirmou que o instrumento usado para os cortes na garganta e no abdômen foi uma faca afiada, de 15 a 20 centímetros, e que os cortes indicavam que o criminoso possuía bons conhecimentos de anatomia humana. Segundo relato do médico para os jornais, o intestino da vítima havia sido removido e posicionado sobre seus ombros, e parte de seu útero, constatou-se depois, também fora extirpado.


Elizabeth Stride
Domingo, 30 de setembro de 1888


Fotografia mortuário de Elizabeth Stride

A vítima foi encontrada morta em um pátio escuro, também em Whitechapel. Apresentava cortes na garganta. Diferentemente dos dois casos anteriores, não tinha mutilações no abdômen. Alguns pesquisadores defendem que o assassino pode ter sido interrompido pela aproximação de outra pessoa. O fato é que, a uma distância pequena dali, uma hora depois, houve mais um assassinato.


Catherine Eddowes
Domingo, 30 de setembro de 1888


Fotografia mortuário de Catherine Eddowes

A noite é conhecida como o “Evento duplo”, em que Jack, o Estripador teria assassinado duas mulheres. Horas antes, Catherine Eddowes havia sido detida por estar deitada bêbada no meio da rua. Quando aparentava maior sobriedade, foi liberada. Seu corpo foi encontrado na Mitre Square, com o rosto desfigurado, cortes no pescoço, incisões no abdômen e o intestino para fora.


Mary Jane Kelly
Sexta, 9 de novembro de 1888



                            Corpo de Mary Jane Kelly




As imagens são assustadoras. O corpo de Mary Jane Kelly foi encontrado na cama de um quarto de uma estalagem. Sem outras pessoas por perto, em um ambiente fechado, o assassino teve tempo para seu crime mais desconcertante. Os cortes no pescoço eram apenas detalhe. Esse foi o último assassinato atribuído pela maioria como obra de Jack, o Estripador.


A Investigação

A ciência forense ainda engatinhava na época. Entre as limitações mais óbvias estavam a falta de exames de DNA, impressões digitais e fotografias das cenas dos crimes. Além dessas restrições, a investigação convivia com suposições inusitadas para os dias atuais. Uma das vítimas, por exemplo, teve seus olhos fotografados para que se pudesse descobrir as últimas cenas vistas por ela - como o rosto do assassino.


Anúncio em jornal da época sobre a procura do assassino.

Para dificultar o trabalho da polícia, as mortes ocorreram em territórios de duas forças policiais diferentes: a City of London Police e a Metropolitan Police. Rumbelow sugere em seu livro que o assassino possa ter premeditado essa logística para atrapalhar os investigadores. Por coincidência ou conhecimento, Jack, o Estripador fazia uma espécie de ziguezague entre as jurisdições das duas polícias da cidade, a Metropolitan Police e a City of London Police. Ele matava uma vítima no território de uma polícia e depois matava a próxima no território da outra. Dessa forma, a falta de comunicação entre as forças atrapalhava ainda mais os trabalhos de investigação.

De acordo com a Marriott, outro fator, até então inédito, dificultou ainda mais a condução das investigações: a imprensa. Com custo reduzido pela produção em massa e então recentes facilidades de impressão, os tabloides encontravam-se em ascensão na época. Cartas falsificadas enviadas à polícia, manchetes sensacionalistas, informações deturbadas e subornos a agentes estão entre as ações dos jornalistas naquele período. A falsificação de fatos se tornou prática comum no decorrer daqueles meses, a fim de aumentar a circulação e não deixar a história morrer antes da próxima vítima do serial killer.

Durante as investigações, mais de 2 mil pessoas foram levadas à delegacia para prestar depoimento.


As Cartas

Depois da morte de Annie Chapman, os periódicos e a polícia começaram a receber cartas pretensamente escritas pelo serial killer. Todas (ou quase todas) não passaram de trote. A imprensa teve um papel decisivo na popularidade do criminoso: distorcia muitos fatos, exagerava em outros e, em alguns, simplesmente inventava.

Mesmo assim, uma delas teve importância crucial para o caso. A missiva que auferiu ao assassino a alcunha de Jack, o Estripador foi obra de um jornalista, segundo investigação da Scotland Yard na época. O autor da carta se passava pelo serial killer e fazia alusão aos crimes para incensar as manchetes de seu jornal, segundo documentos da investigação. Para azar da polícia, o apelido pegou. 

Outra carta, esta de título From Hell (Do Inferno), é considerada uma das mais prováveis de ter sido enviada pelo próprio criminoso. Ela estava dentro de uma caixa que continha um rim. Supôs-se que o órgão pertencesse à terceira vítima, que teve um rim removido pelo assassino, mas a hipótese não foi confirmada.


From Hell - suposta carta do assassino

Confira a tradução da carta: 

Do inferno

Mr. Lusk, 
Senhor
Eu envio um rim que peguei de uma mulher. O outro eu fritei e comi e estava bem gostoso. Posso lhe enviar a faca se você esperar mais um pouco. 

Assinado
Prenda-me quando puder, Sr. Lusk 


Os Suspeitos

Mais de 300 suspeitos foram investigados e cerca de 80, presos. A concentração dos assassinatos nos fins de semana, todos em ruas próximas, parecia indicar que o assassino trabalhava durante a semana e vivia na região. Essa é a aposta do especialista Donald Rumbelow, por exemplo, que acredita que Jack era um anônimo de Whitechapel.

Também se suspeitou que o criminoso fosse um médico, pois teria de possuir algum conhecimento cirúrgico para realizar a remoção de órgãos internos. Muitos acreditam, porém, que as extrações não tenham sido realizadas de forma tão acurada, por falta de tempo ou imperícia. Assim, ampliou-se o escopo das investigações. Já Marriott acredita que os órgãos não tenham sido removidos pelo assassino e aponta o marinheiro mercante alemão Carl Feigenbaum, cujo itinerário coincidia com as datas dos crimes, como principal suspeito.


Alguns suspeitos

Lista de suspeitos "genuínos" indicada pela Metropolitan Police: 

- Kosminski, um pobre polonês de origem judaica que residia em Whitechapel; 

- Montague John Fruitt, 31, advogado e professor que cometeu suicídio em dezembro de 1888; 

- Michael Ostrog, ladrão russo dotado de diversos pseudônimos e preso e detido em asilos em várias ocasiões; 

- Dr. Francis J. Tumblety, 56 anos, tido como um curandeiro americano que foi preso em novembro de 1888 por indecência e fugiu do país após pagar fiança altíssima. 


A Identidade de Jack o Estripador é Finalmente Revelada

Depois de mais de 120 anos de mistério e uma centena de teorias apresentadas, parece que, finalmente, foi revelada a identidade do serial killer Jack, o Estripador. Seus crimes chocaram a cidade de Londres no ano de 1888. Ele matava mulheres (geralmente, prostitutas) da região leste da capital inglesa.

O assassino mutilava os corpos das vítimas e retirava seus órgãos internos. Ao longo do tempo, muitos já foram apontados como suspeitos, entre eles famosos como o pintor Walter Sickert e até mesmo o autor de Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll. A polícia, na época, tinha os seus suspeitos, porém, não havia provas para prender alguém. Acredita-se que, ao menos, cinco prostitutas (talvez até 11) tenham sido mortas pelo maníaco.

Hoje, a história é diferente. Com o recurso do exame de DNA, Russel Edwards, autor do livro Naming Jack The Ripper (Nomeando Jack, o Estripador, em tradução livre) confirma que o assassino era Aaron Kosminski, um imigrante judeu de 25 anos, vindo do então Império Russo, que vivia com sua mãe e irmãs. Kosminski, oficialmente, trabalhava como cabeleireiro, mas estava sem emprego fazia anos. Na época, ele já era considerado suspeito pelos assassinatos, e os médicos haviam observado seu comportamento delirante, com abusos depravados contra si mesmo. Sem dúvida, sabiam que era louco.



                     Ilustração de Aaron Kosminski

A comprovação, por meio de DNA, de que Jack, o Estripador é de fato Kosminski começou a partir da análise de um xale de uma das vítimas do assassino, a prostituta Catherine Eddowes. O autor da pesquisa encontrou uma mancha de sangue no tecido e combinou essa amostra com uma análise de DNA de descendentes de Eddowes.

Apesar de o xale encontrado ser uma peça cara na época, sabe-se que Catherine Eddowes era alcoólatra e venderia qualquer coisa para obter bebida – na noite anterior à sua morte, foi encontrada bêbada na rua pela polícia. Além disso, o xale tinha sido confeccionado no leste europeu, um outro fato de conexão com Kosminski.

Contudo, a descoberta crucial aconteceu quando a equipe de Edwards descobriu manchas de sêmen no xale. Após rastrear um descendente da família de Kosminski, ficou comprovado com 100% de certeza de que a amostra era de Kosminski, de acordo com o autor.


Xale de uma das vítimas do serial killer

A polícia, na época, estava certa de que ele era o assassino, porém as investigações esbarravam nas limitações técnicas. Kosminski chegou a ser interrogado, seu comportamento levantou suspeitas, mas, sem provas, a polícia não poderia fazer nada contra ele. Além disso, as autoridades temiam que houvesse ataques contra judeus e outros imigrantes na região caso fosse amplamente divulgada a identidade do principal suspeito.

De qualquer maneira, o estado de saúde de Kosminski se deteriorou e ele foi internado em instituições para pessoas com distúrbios mentais.

O assassino ainda teria em seu histórico um passado de abusos sexuais e, provavelmente, foi testemunha de atrocidades por conta da perseguição aos judeus na Rússia. Sua família teve que viver em guetos até que conseguisse fugir para Londres, praticamente sem dinheiro, para viver na pobreza. Acredita-se que ele morreu em torno dos 53 anos, em Hertfordshire, em 1919.


Descoberto Erro que Compromete Identificação de Jack, O Estripador

Através de exames minuciosos de DNA feitos a partir de um xale encontrado junto com uma das cinco vítimas do serial killer, cientistas chegaram a conclusão de que o assassino mais famoso do mundo era Aaron Kosminski, um barbeiro polonês residente em Londres.

O cientista Jari Louhelainen conseguiu extrair sete fragmentos incompletos de DNA mitocondrial (mtDNA), e tentou corresponder às suas sequências com os códigos de uma descendente viva de Catherine Eddowes, chamada Karen Miller. A chave para a correspondência entre as duas pessoas seriam uma alteração genética raríssima encontrada no DNA da vítima, conhecida como mutação privada global (314.1C). A mesma mutação também estaria no sangue de Miller, levando o cientista então a fazer uma correlação direta entre as duas e apontar Kosminski como o famoso Jack.




O mistério volta à tona após outros especialistas alegarem terem encontrado um "erro de nomenclatura" na metodologia do estudo de DNA. Louhelainen, aparentemente cometeu um erro fundamental que mina fatalmente sua hipótese.

O cientista relatou que havia encontrado uma mutação chamada 314.1C. Mas a mutação na verdade deveria ser chamada de 315.1C, de acordo com as práticas forenses, e ela é extremamente comum em 99% das pessoas de ascendência europeia. Se essa é a grande prova, então praticamente qualquer pessoa na Europa poderia ter sido Jack, o Estripador.

Para Louhelainen, a probabilidade era de 1/290.000. Mas para chegar a esse número errado, parece que ele cometeu outro erro – desta vez dividindo (e exagerando) a raridade da mutação em 10 vezes. Pelo método errado, ele teria que usar o total de mutações em um banco de dados (cerca de 29.000), resultando no valor de 1/29.000.

A editora do livro informou que investigaria o suposto erro. No entanto, a empresa afirmou que "a conclusão de que Aaron Kosminski era Jack, O Estripador, depende de muito mais do que este fato".


Pesquisa e revisão: tia Val
Imagens: internet