11/08/2017

Conto: A Queda de Anael



Era interessante observar as crianças brincarem no parquinho. Seres tão inocentes, tão desprovidos do conhecimento da maldade nesse mundo, que me faziam sentir vontade de ser um deles. Ficavam felizes por poucas coisas, e era mais fácil para mim fazê-los felizes, também.

Não, não pense que meu trabalho é este, porque não é mesmo. Deixar crianças felizes não me dava tanta energia quanto deixar adolescentes e adultos felizes. Com os adolescentes, era como se eu fosse alimentada cinco vezes mais que com adultos e dez vezes mais que com crianças. A adolescência é a fase com mais riscos de desenvolvimento de depressão, portanto a idade que mais me interessava.
Porém, não tinha sequer um adolescente naquele parquinho. Dei um longo suspiro, logo após levantando-me. Apesar de eu ter caído faz alguns meses, demorei a me acostumar à nova vida. Quando eu vivia no mundo celestial, tudo era perfeito. Vivia com meus irmãos favoritos, Rafael e Gabriel, cantava músicas para Deus, batia as minhas enormes, brancas e belas asas de lá para cá... Mas, chegou um momento que eu conheci os humanos. E assim que começou a minha história.

Eu me apaixonei por um humano. Ele tinha belos olhos cor do mar, e cabelos escuros como o breu. Certo dia, dia o qual eu o conheci, ele estava voando de asa delta, enquanto eu estava sentada numa nuvem, olhando distraidamente para a bela paisagem que me cercava. Contudo, começara a chover.

Imediatamente, afastei-me das nuvens. Torci para que aquela chuva o poupasse, porque ele estava perto do seu destino, mas, a asa tinha sido atingida por um raio. O homem estava caindo, caindo para a sua morte, e eu não pude fazer nada além de interferir. Rafael tentou conversar com Deus, alegando que eu só estava fazendo o que era certo. Porém, o Mais Poderoso argumentou que eu estava interferindo no destino do homem, por isso eu deveria ficar alguns dias lá embaixo para aprender a lição.





Foi uma queda horrível. Sim, sete dias. Eu gritei pelo nome do meu irmão, até que eu acordo num beco sem saída, molhada por conta da chuva, e assumindo um corpo que eu nem sabia que poderia ter. Quer dizer, os anjos não tinham exatamente um sexo, sendo assim um pouco estranho para mim, estar num corpo humano.

Sem saber o que fazer, nem sequer me mexer dali, já que eu não havia dominado todos os sentidos daquele corpo ainda, comecei a chorar. De alguma forma, os meus prantos chamaram a atenção de um homem, que veio ao meu socorro.

Olhei em seus olhos: eram os mesmos olhos cor do mar. Era o homem que eu salvara. A minha boca abriu e fechou, prestes a dizer algo, até que minha visão ficou turva e eu senti meu corpo ficando cada vez mais leve.

Se achou que eu tinha desmaiado, você acertou.

Acordei com meus olhos sendo feridos pela luz que emanava do Sol. Como doeu! Felizmente, eu não sentia essa e nem outra sensação lá em cima. Quer dizer, minha garganta estava seca e a região abaixo das minhas costelas fazia um barulho.

Os detalhes do quarto que eu me encontrava cada vez ficavam mais nítidos. Era um quarto simples. Paredes brancas, cama para uma pessoa só. Um espelho enorme se encontrava ao lado da janela, e o meu instinto me direcionou até ele.
Quase que eu soltei um grito. Eu tinha assumido o corpo de uma humana no começo da sua fase adulta. Minha pele era bronzeada, e meus olhos e cabelos eram escuros. A estatura era alta, utilizando como comparação a estatura do homem. Meus dedos eram longos e finos, e a palma da mão era da cor de uma nuvem.

Segurei a pequena bolinha que ficava na porta que ficava no meio da parede, e a chacoalhei. O barulho foi enorme. Chacoalhei novamente e não deu certo. Quando eu resolvi girar a bolinha, foi que deu certo. Lenta e silenciosamente, olhava para cada canto do lugar, um pouco assustada com aquilo tudo. Se em menos de vinte quatros horas já tinha acontecido tanta coisa, imagine nas horas em que se seguissem...

Escutei uma bela melodia, não muito longe de mim. Os meus pés me guiaram até o som, já que eu havia sido hipnotizada pela melodia, o qual era nova para mim, pois nunca tinha escutado uma que soasse daquele jeito. Escondi-me atrás do batente da porta — depois que eu fui descobrir que se chamava batente — apenas um olho meu espiando o humano tocar.

Não sei o que era mais fácil de pegar totalmente a minha atenção: se era o homem, ou era o som que saía da caixa de madeira em forma de oito que ele tinha no colo. Ele franzia o cenho, de tão concentrado que estava, enquanto passeava com os dedos da mão esquerda pelo violão, não em posições aleatórias, mas que faziam a melodia não ficar caótica.

O efeito que a melodia fazia em mim era indescritível. Veja, humano, eu até poderia descrever, porém creio que não entenderia — a diferença entre o seu mundo e o meu são gigantes. O momento que fui trocar o peso de uma perna para outra, foi o momento em que ele me pegou no flagra. Pareceu que havia acordado, talvez a música o hipnotizara também. Fiquei sem reação, não estava acostumada com aquilo e nem sabia o que era pedir desculpas.

— Está tudo bem? — ele perguntou, pousando o instrumento ao lado da cadeira em que antes estava sentado.

Balancei a cabeça rápida e negativamente.

— Como é... Como é que vim parar aqui? — Foi apenas o que eu consegui perguntar.

— Encontrei você chorando num beco. Não tinha como não ter te ajudado.

— Ah.

— Eu deixei algumas roupas para você trocar, em cima da cadeira — ele continuou a falar. — Provavelmente você não viu.

Olhei curiosa para o que eu usava. A roupa ainda se encontrava um pouco encharcada, e, se não fosse por ainda eu ter algum poder angelical, poderia ter contraído o que os humanos chamavam de resfriado.

— Eu vou lá trocar. — Demorei a responder a fim de não falar gaguejando como antes fiz.

— Certo, espero que as roupas da minha irmã fiquem boas em você.

Vesti as roupas que ele havia separado. Tinha ficado um pouco largas em mim, mas nada que fosse tanto. Voltando para quarto dele — sim, onde eu o ouvi tocar era o seu quarto — ele se apresentou como Theo. Quando foi a hora de eu me apresentar, apenas disse que me chamava Ana, as três primeiras letras de meu nome real.

Theo tentou o máximo fazer amizade comigo. Perguntei, tentando utilizar meu charme de humana, se eu poderia ficar durante sete dias. Ele estranhou um pouco, mas não negou. E então, ofereci meu trabalho como cantora, já que ele costumava tocar algumas vezes na rua.





O homem deu um sorriso sincero, que refletiu em seus olhos claros. Caminhamos, depois de uma pequena refeição, até o parque da cidade. Sentamos num banco, e eu comecei a cantar. Cada canção que eu cantava saía naturalmente da minha boca, sinal que, felizmente, nem todos os meus dons de
anjo foram roubados. Theo me acompanhava, animado, e as pessoas paravam para nos escutar e jogavam algumas moedas, algumas vezes notas, na caixa de seu violão.

No final do dia, ganhamos uma boa soma de dinheiro, e ele me ofereceu toda a quantia para comprar o que eu quisesse. Gastei um pouco do dinheiro com somente o necessário, não achando necessário gastar tudo, afinal, o homem também deveria poder gastar o que juntos ganhamos.

Fizemos isso mais seis vezes. O ajudei também no trabalho comunitário dele, que era ler histórias para crianças no hospital. Os meus olhos encharcaram de lágrimas, triste porque o Mais Poderoso ligava para o fato de eu interferir no destino do humano, mas não ligava para aquelas crianças. Sorte é que existiam humanos como Theo.

No dia da despedida, eu concluí, ao olhar para a expressão triste no rosto de Theo, que eu não poderia simplesmente deixá-lo. Bem ou mal, eu sabia que eu tinha feito diferença na vida daquele simples humano, aprendendo até a cozinhar a comida favorita dele. Por conta disso, eu pedi mais sete dias aos meus irmãos. Rafael os conseguiu para mim, apesar de ele ter me alertado que eu estava mexendo com o perigo, mas, a princípio, eu não me importei. 

Naquele tempo, caro leitor, eu deixei as minhas emoções de humana me controlarem. E, novamente, foram sete dias maravilhosos. Era ótimo estar na presença dele, me trazia uma sensação diferente, uma sensação que eu não sabia nomear — se chamava amor — e que me fazia querer ficar na Terra para sempre.

No entanto, quando o prazo acabou, Rafael bateu à porta, olhando para mim seriamente, coisa que eu nunca o vi fazer. Então eu reparei que meu prazo havia acabado fazia um dia, portanto eu tinha desrespeitado a promessa, além de ter contado a um humano a verdade sobre o céu. Desconfortável, eu perguntei como teria que pagar. O mais chocante foi que eu não esperava aquilo. Mesmo já tendo uma boa idade como ser celestial, eu não esperava aquilo. Esperava que o Todo Poderoso fosse misericordioso comigo, já que era com alguns humanos.

Aceitei a queda com dor no coração, mas sabendo que Theo ficaria comigo. Ele me ensinou a tocar violão, ajudar ele nos trabalhos voluntários e conseguiu um emprego num bar para mim. Os primeiros meses foram os melhores da minha vida. Eu ainda tinha os poderes de anjo, mas enfraquecidos, sentindo eles diminuírem até definitivamente se extinguirem, a cada dia que passava.

Mas, Theo ficou doente. Doença que não tinha cura, doença que mal entendiam sobre. Foi então que eu tive que procurar ajuda; não dos meus irmãos, mas sim dos anjos malignos. Eu fiz uma oferta a Lúcifer: trabalharia para ele, se Theo tivesse saúde plena para sempre.

E foi assim que eu me tornei um anjo maligno. Não, leitor, eu não tenho vergonha disso. Eu fiz por amor, e por amor eu faria outras mil coisas. Sendo um anjo maligno, eu deveria ter algum poder e foi este me dado: eu faria as pessoas infelizes.





Logo temi que eu fosse fazer Theo, mesmo sem querer, infeliz. Cada pessoa que eu interagia com, seja com um sorriso ou aceno de mão, era diagnosticada com depressão. Eu via meu amado perder o brilho dos olhos claros que ele tinha a cada sete dias que passava. Por conta disso, eu usei parte do poder celestial que me restava, e apaguei parte de sua dor, e tudo que ele sabia sobre mim. Eu já tinha um bom dinheiro, então pude me virar sozinha. Mesmo como anjo maligno, eu não perdi a minha bondade.

Cada pessoa com depressão por minha causa me fazia me isolar mais e querer voltar mais ao lugar onde eu morava desde que fui criada; mas sabia que as coisas não eram assim.

Rafael e Gabriel, vendo meu sofrimento, resolveram me ajudar. Como não eram Deus, eles não poderiam me trazer de volta, apenas me dar uma pequena bênção. Eu ainda faria as pessoas tristes, até mesmo depressivas, mas eu sugaria a infelicidade delas — coisa que me nutriria.

E essa é a minha história. História de Anael, primeiro anjo, depois anjo caído, anjo maligno e agora híbrida.







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Caros leitores, este conto não deve ser reproduzido sem os devidos créditos
à autora Aslyn e ao blog O Assustador. :)